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Tracção

André Romão, Bruno Cidra, Diogo Evangelista, Gonçalo Sena

Inauguração: 11 de Setembro às 21h30

Até 18 de Outubro

5ª feira – Sábado: 14H30 – 19H30

Esta exposição consiste na realização de projectos marcadamente site-specific por parte de quatro jovens artistas – André Romão, Bruno Cidra, Diogo Evangelista e Gonçalo Sena. A linha de trabalho de cada um converge para diferentes meios e diferentes lógicas de pensamento e construção. A exposição é pensada como um todo articulável, mas heterogéneo.

Não existido nenhuma filiação plástica, disciplinar ou temática entre o trabalhos dos quatro (têm sido explorados os mais diversos meios, entre desenho, escultura, pintura, vídeo, performance, instalação ou técnicas de gravura) uma coesão conceptual é atingida por uma preocupação transversal e catalizadora da produção: o conflito material na obra (entre o real e o ideal). Numa relação entre o fazer e o objecto, entre um pensamento abstracto e o impor da obra no real, entre um abordar geral da temática e o explorar das idiossincrasias individuais.

Na construção de um universo metafórico, todos os materiais têm uma função específica. Os elementos presentes na instalação de André Romão encenam (partindo do episódio da greve geral dos mineiros de 1984/5 em Inglaterra) a construção de um ideal absoluto, baseado em ideias de trabalho, compromisso e sacrifício. Ao colocar o ênfase do trabalho num plano metafísico, os materiais e fragmentos narrativos que encenam esse princípio, adquirem uma importância extrema, pois formam deste modo os elementos simbólicos que impõe a ideia no real. O anfiteatro e a barricada, o ladrão de bicicletas e a decapitação da estatua de Auguste Comte, espelham um conflito permanente entre abstracção total e o tornar obra, entre a potência e o acto. Referencias literárias, históricas e filosóficas delimitam o território conceptual da obra.

O trabalho de Bruno Cidra, ao pensar o modo como os objectos definem um espaço, reforça a ideia de um conflito material. O trabalho desenvolvido principalmente no campo da escultura, e utilizando principalmente ferro e papel como matérias de eleição, tem explorando uma tensão muito especifica: a dos materiais que formam cada peça. Como estes se conjugam e catalizam. Numa relação muito próxima com o desenho, as esculturas inserem-se no espaço de modo muito especifico, alterando-o. A peça apresentada é composta pela dicotomia entre um material extremamente duro, uma trave de madeira, e por outro elemento quase dissonante, tiras de papel modeladas que criam uma tensão entre a sua aparente fragilidade e a força da sua função estrutural. Muito do sentido implícito no trabalho de Bruno Cidra advém de um explorar dos limites históricos da escultura, da herança clássica da estatuária até ao legado minimalista do objecto para o espaço, em si e para si.

O trabalho em pintura desenvolvido por Diogo Evangelista relaciona-se de forma muito especifica com o tema proposto, sendo a pintura algo que se liberta do constrangimento de ser apenas uma imagem. Num repensar da articulação entre a superfície da pintura e o suporte de uma pintura. A pintura de Diogo Evangelista não passa por uma representação ilusionista (em que uma certa disposição de cores informam uma imagem) de algo, de um tema. A superfície pintada destaca-se da parede, a tinta acumula-se à saturação do suporte, a pintura entra irremediavelmente no número das coisas. São pinturas feitas de tinta, e este mecanismo aparentemente tautológico, revela algo de muito importante, a pintura é tratada como algo de muito físico, material, a figuração serve como desculpa para o jogo da pintura, pintar sobre pintura.

Ao pensar na questão material no trabalho de Gonçalo Sena, há que pensar nas propriedades físicas, naturais, irremediáveis das coisas, numa constatação empírica o pó de gesso reage com água e endurece, mas se retornar à mesma desfaz-se, o azeite impermeabiliza uma superfície, etc. Este constatar das propriedades específicas dos materiais estabelece-se quase sempre como metáfora de um pensar sobre o fazer artístico, o dissolver no gesso na água não está imune ao pensar da impossibilidade de permanência absoluta da escultura. Eventos, materiais, coisas adquirem assim um carácter poético próprio, num universo conceptual ligado ao agir, ao pensar, ao fazer. Na instalação presente na arte contempo, dois materiais: a cal e a água, acentuam uma tensão entre as propriedades físicas e poéticas dos materiais, evocando ideias de permeabilidade, isolamento, decomposição

 

 

Projecto financiado por:

 

 

A  “Arte Contempo” é uma associação cultural sem fins lucrativos, de iniciativa privada, cujo intuito é a difusão da cultura contemporânea.